... revelaram-se fatais para muitas empresas
Receitas distorcidas, custos e preços de acções têm sido colocados no mesmo saco pelas
duvidosas métricas financeiras que as empresas adoptaram. Os executivos das empresas que
conduzem negócios na Internet têm usado mal
para sua conveniência as métricas tradicionais de rentabilidade e valor
económico. Como alternativa, enfatizaram definições mais amplas de receitas, número de
clientes ou, ainda mais suspeito, medidas que porventura um dia poderão estar
correlacionadas com receitas, tal como o número de utilizadores por uma única vez,
número de visitantes dos sites ou taxas do número de cliques. As abordagens criativas da
contabilidade também se multiplicaram. De facto, a Internet fez crescer uma fileira de
novas medidas de performance que têm unicamente uma relação ambígua com o valor
económico, como as medidas pró-forma de rendimentos que excluem os custos «não
recorrentes», como as aquisições. A ligação dúbia entre as métricas referidas e a
rentabilidade actual só tem servido para ampliar os sinais confusos sobre o funcionamento
do mercado. O facto de essas medidas terem sido tomadas seriamente pelo mercado de
acções ainda tem agitado mais as águas. Por todas estas razões, a verdadeira
performance financeira de muitos dos negócios ligados à Internet ainda é pior que o que
tem sido referido. Voltar
aos princípios fundamentais
É difícil levar uma firma a entender o impacte da Internet no seu negócio olhando para
os resultados momentâneos. Mas duas conclusões principais podem ser delineadas.
Primeiro, muitos negócios activos na Internet são negócios artificiais, que competem
com meios artificiais suportados por capital que, até hoje, tem estado facilmente
disponível. Segundo, em períodos de transição, como aquele pelo qual temos estado a
assar, surgem muitas vezes como se houvesse novas normas de competição. Mas como as
forças do mercado jogam fora, tal como estão agora, as novas regras retomam a sua
actualidade. A criação de valor real económico torna-se o árbitro final no sucesso dos
negócios.
O valor económico para uma empresa não é mais que o fosso entre o preço e o custo, e
é realmente medido pela rentabilidade sustentada. Gerar receitas, reduzir despesas ou
simplesmente fazer algo útil implementando a tecnologia da Internet não são evidências
suficientes de que tenha sido criado valor. Nem o preço corrente das acções de uma
empresa é necessariamente um indicador de valor económico. O valor para os accionistas
é uma medida do valor económico em que se pode confiar com o decorrer do tempo.
Pensando no valor económico, é útil estabelecer uma distinção entre os usos da
Internet e as tecnologias da Internet, tais como ferramentas de padronização de sites ou
serviços de comunicação, que pode ser desdobrada em vários usos. Muitas pessoas
apontaram para o sucesso dos fornecedores de tecnologia como sendo uma evidência do valor
económico da Internet. Mas este raciocínio é falso. São os usos da Internet que, em
última análise, criam valor económico. Os fornecedores de tecnologia podem crescer por
tempo indefinido, desde que os usos da Internet sejam rentáveis. Em períodos de muita
experimentação, mesmo os vendedores de tecnologias defeituosas podem prosperar. Mas, a
menos que os usos gerem receitas sustentáveis ou poupanças nos custos de
implementação, as oportunidades para os fornecedores de tecnologias morrerão a partir
do momento em que as empresas se consciencializem de que não é viável fazer outro
investimento.
Então, como é que a Internet pode ser usada para criar valor económico? Para descobrir
a resposta temos de olhar, muito para além dos sinais imediatos do mercado, para dois
factores fundamentais que determinam a rentabilidade:
A estrutura industrial, que determina a rentabilidade do concorrente médio; e A vantagem
competitiva sustentável, que permite a uma empresa superar o concorrente médio.
Estes dois importantes condutores de rentabilidade são universais; eles transcendem
qualquer tecnologia ou tipo de negócio. Ao mesmo tempo, variam muito consoante a
indústria ou a empresa. As classificações da superindústria, tão comuns no discurso
da Internet, tais como business-to-consumer (ou B2C) e business-to-business (ou B2B), não
têm sentido, com todo o respeito pela rentabilidade.
A Internet e a estrutura da indústria
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O léxico destrutivo
da INTERNET |
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As abordagens da competição mal orientadas,
que caracterizam os negócios na Internet, foram incluídas na linguagem usada para
discutir, precisamente, este assunto. Em vez de falarem em termos de estratégia e
vantagem competitiva, as dotcoms e outros actores da Internet falam de «modelos de
negócio». Esta mudança na terminologia, aparentemente inócua, quer dizer muito.
A definição de um modelo de negócio é sombria. Muitas vezes parece referir-se a uma
concepção perdida no tempo de como uma empresa faz negócio e gera receitas. E ter
simplesmente um modelo de negócio é algo extremamente redutor do que se entende por
construção de uma empresa. Gerar receitas está a uma grande distância da criação de
valor económico, e nenhum modelo de negócio pode ser avaliado independentemente da
estrutura da indústria. A abordagem do modelo de negócio para a gestão passa a ser um
convite a pensamentos enganosos e a auto-ilusões. Outras palavras do léxico da Internet
também tiveram consequências pouco felizes. Os termos «e-business» e «e-strategy»
têm sido particularmente problemáticos. Encorajando os gestores a verem as suas
operações na Internet isoladas do resto do negócio, podem conduzir a abordagens
simplistas da competição através da Internet e ao aumento da pressão à
imitação competitiva. |
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A Internet criou algumas novas indústrias, como os
leilões online e os mercados digitais. No entanto, o seu maior impacte tem sido
possibilitar a reconfiguração de indústrias já existentes, constrangidas por elevados
custos de comunicação, de armazenagem de informação ou de concretização de
transacções.
Quer uma indústria seja nova quer seja velha, a sua atractividade estrutural é
determinada por cinco principais forças de competição: a intensidade da rivalidade
entre concorrentes que já existem, as barreiras à entrada de novos concorrentes, a
ameaça de produtos ou serviços substitutos, o poder de negociação dos fornecedores e o
poder de negociação dos compradores. Combinadas, estas forças determinam como é que o
valor económico criado por qualquer produto, serviço, tecnologia ou forma de competir
está dividido entre, por um lado, empresas a operar num sector e, por outro lado,
clientes, fornecedores, distribuidores, substitutos e novas entradas potenciais. Apesar de
alguns terem argumentado que a rapidez da mudança tecnológica nos nossos dias torna a
análise do sector menos válida, o contrário é verdadeiro. A análise das forças
esclarece a atractividade fundamental do sector, expõe os condutores principais da
rentabilidade média da indústria e fornece conhecimentos sobre a rentabilidade no
futuro. As cinco forças competitivas ainda determinam a rentabilidade, mesmo se os
fornecedores, os canais e os substitutos mudarem.
Dado que a importância de cada uma das cinco forças varia consideravelmente de
indústria para indústria, será enganoso retirar conclusões gerais sobre o impacte, a
longo prazo, da Internet sobre a rentabilidade da indústria; cada indústria é afectada
de forma diferente. Algumas das tendências são positivas. Por exemplo, a Internet tem
tendência a diminuir o poder negocial dos canais pelo facto de disponibilizar às
empresas estradas novas e mais directas para os clientes. A Internet também pode
impulsionar a eficácia do sector de várias maneiras, alargando o tamanho do mercado
através do desenvolvimento da sua posição face a substitutos tradicionais.
Mas a maior parte das tendências são negativas. A tecnologia da Internet confere aos
compradores um fácil acesso à informação sobre produtos e fornecedores, reforçando o
poder de negociação dos compradores. A Internet abranda a necessidade deste tipo de
coisas como uma força de vendas estabelecida ou como um acesso a canais existentes,
reduzindo as barreiras à entrada. Possibilitando novas abordagens para ir de encontro às
necessidades e desempenhando funções, a Internet cria novos substitutos. Porque é um
sistema aberto, as empresas têm mais dificuldade em manter as suas próprias ofertas, o
que intensifica a rivalidade entre concorrentes. O desenvolvimento da Internet também
tende a alargar o mercado geográfico, causando o aumento do número de empresas que
competem umas com as outras. E a tecnologia da Internet tende a reduzir os custos
variáveis e a inclinar os custos da estrutura para os custos fixos, pressionando
significativamente as empresas a tomarem parte na destrutiva competição pelo preço.
O desenvolvimento da Internet pode expandir o mercado, fazendo-o muitas vezes à custa da
rentabilidade média. O grande paradoxo da Internet é que os seus muitos benefícios
tornando a informação largamente disponível; reduzindo a dificuldade das
compras, marketing e distribuição, e permitindo a compradores e vendedores encontrarem e
transaccionarem negócios mais facilmente entre
si também fazem com que seja mais difícil para as empresas irem buscar aqueles
benefícios e lucros.
O bom exemplo dos leilões na Internet
Nem todas as indústrias em que a tecnologia da Internet é requerida não são
atractivas. Por exemplo, olhem para os leilões da Internet. Aqui, clientes e fornecedores
estão fragmentados e portanto têm pouco poder. Os substitutos, como anúncios
classificados e mercados de rua, têm menos alcance e são menos convenientes. E, assim,
as barreiras à entrada são modestas, as empresas podem criar economias de escala tanto
em infra-estruturas como, ainda mais importante, na agregação de vários compradores e
vendedores, que colocam novos concorrentes em desvantagem.
A rivalidade neste sector tem sido amplamente definida pela eBay o concorrente
dominante na forma de fornecer um mercado de «uso fácil», onde as receitas
provêm de taxas de vendas, enquanto os clientes pagam o custo da navegação. Quando a
Amazon e outros rivais entraram no negócio, oferecendo leilões grátis, a eBay manteve
os seus preços e prosseguiu com outras formas de atrair clientes. Resultado: a destrutiva
competição pelo preço foi abolida.
O papel da eBay no negócio dos leilões dá-nos uma importante lição: a estrutura da
indústria não é fixa, mas moldada até um certo ponto pelas escolhas dos
concorrentes. A eBay agiu de uma forma que veio a fortalecer a rentabilidade da sua
indústria. Contrariamente, a Buy.com um retalhista proeminente na Internet
agiu de uma forma que veio a destruir a sua própria indústria, já para não mencionar o
seu próprio potencial de vantagem competitiva. A Buy.com atingiu mais depressa 100
milhões de dólares em vendas que qualquer outra empresa ao longo da história, mas
conseguiu-o definindo a competição unicamente com base no preço. Vendeu produtos não
só abaixo do custo real, mas ao nível ou abaixo do custo da mercadoria,
com a vaidosa esperança de que isso pudesse trazer dinheiro de outras maneiras.
A empresa não fez um planeamento para ser um fornecedor de baixos custos; em vez disso,
investiu na promoção da marca e renunciou a fontes potenciais de diferenciação,
recorrendo ao outsourcing para tudo e oferecendo o mínimo dos mínimos no serviço ao
cliente. Isto deu-lhe, ao mesmo tempo, a oportunidade de se colocar à parte dos
concorrentes, escolhendo não se concentrar sobre a venda de mercadorias específicas;
mudou-se rapidamente da electrónica, a sua categoria inicial, para inúmeras outras
categorias de produtos, nas quais não dispunha de oferta única. Apesar de a empresa ter
vindo a posicionar-se, os primeiros movimentos provaram ser difícil voltar atrás.
O mito do primeiro a avançar
Dadas as implicações negativas da Internet em relação à rentabilidade, por que houve
tanto optimismo, mesmo euforia, em torno desta adopção? Uma razão prende-se com o facto
de todas as pessoas concentrarem a sua atenção no que a Internet poderia fazer e como a
sua utilização estaria a expandir-se tão rapidamente, em vez de questionarem como é
que ela estaria a afectar a estrutura da indústria. Mas o optimismo também pode ser
fundamentado pela crença generalizada de que a Internet iria separar as forças que iriam
impulsionar a rentabilidade da indústria. Mais notável foi a assunção geral de que o
desenvolvimento da Internet iria aumentar os custos de ligação e criar fortes efeitos de
rede, que confeririam aos primeiros a avançar vantagens competitivas e uma robusta
rentabilidade. Os primeiros a avançar reforçaram estas vantagens, criando rapidamente
fortes marcas na Nova Economia. O resultado foi uma indústria atractiva para os
vencedores. Este pensamento, no entanto, não resiste a um exame profundo.
As marcas da Internet também provaram ser difíceis de construir, talvez por causa da
falta de presença física e contacto humano directo, que torna os negócios virtuais
menos tangíveis para os clientes que os negócios tradicionais. Apesar dos enormes gastos
em publicidade, descontos em produtos e incentivos de compra, a maioria das marcas das
dotcoms não atingiram o poder das marcas estabelecidas, conseguindo simplesmente um
modesto impacte na lealdade e nas barreiras à entrada.
Outro mito que gerou um entusiasmo infundado pela Internet foi o de as associações serem
um meio tipo «ganhar-ganhar» de desenvolvimento da economia industrial. Ao passo que as
associações são uma estratégia bem estabelecida, o uso da tecnologia da Internet
tornou-as muito mais generalizadas. As associações tomam duas formas.
A primeira envolve complementos: produtos que são usados em série com outros produtos
industriais. O software dos computadores, por exemplo, é um complemento do hardware. No
comércio da Internet, os complementos proliferaram à medida que as empresas procuravam
oferecer fileiras, topo de gama, de produtos, serviços e informação. As associações,
para instalar complementos muitas vezes com empresas que são, ao mesmo tempo, empresas
concorrentes, foram encaradas como uma maneira de apressar o crescimento da indústria e
abandonar uma tacanha competição de espírito e totalmente destrutiva.
Mas esta abordagem revela uma compreensão incompleta do papel dos complementos na
competição. Os complementos são muito importantes para o crescimento de uma indústria
as aplicações de folhas de cálculo, por exemplo, aceleraram a expansão da
indústria de computadores pessoais , mas não tiveram nenhuma relação directa com
a rentabilidade da indústria. Enquanto, por exemplo, um substituto próximo reduz a
rentabilidade potencial, um complemento próximo pode exercer uma influência tanto
positiva como negativa. Os complementos afectam a rentabilidade da indústria
indirectamente, através da sua influência nas cinco forças da competição. Se um
complemento faz aumentar os custos de ligação para a oferta combinada de produtos, pode
aumentar a rentabilidade. Mas se um complemento serve para estandardizar a oferta de
produtos industriais, como fez o sistema operativo da Microsoft nos PCs, ele também
fará aumentar a rivalidade e diminuir a rentabilidade.
Com a Internet, as associações generalizadas com produtores de complementos tanto podem
exacerbar os problemas estruturais da indústria como mitigá-los. À medida que as
coligações proliferam, as empresas tendem a assemelhar-se cada vez mais, o que faz
aumentar a rivalidade. Em vez de concentrarem os seus objectivos estratégicos, as
empresas são forçadas a equilibrar os objectivos, potencialmente confli-tuosos, dos seus
partners, enquanto também os educam acerca do negócio.
A rivalidade torna-se cada vez mais instável, e desde que os produtores de complementos
possam passar a concorrentes potenciais, a ameaça aumenta.
Outra forma comum de associação é o outsourcing. As tecnologias da Internet para as
empresas facilitaram a coordenação com os fornecedores, espalhando a noção de
«empresa virtual» um negócio criado longe da compra de produtos, componentes e
serviços. Embora o outsourcing alargado possa reduzir os custos a curto prazo e aumentar
a flexibilidade, ele tem um lado negro quando se trata da estrutura da indústria. À
medida que os concorrentes voltam aos mesmos vendedores, os inputs de compras tornam-se
mais homogéneos, esvaindo a distintividade da empresa e aumentando a competição pelo
preço. O outsourcing, normalmente, também reduz as barreiras à entrada, porque quem
entre de novo só precisa de implementar os inputs de compras em vez de construir as suas
próprias capacidades. Adicionalmente, as empresas perdem o controlo sobre elementos
importantes dos seus negócios, e a experiência crucial em componentes, implementação
ou serviços passa para os fornecedores, que, ao longo do tempo, vão aumentando o seu
poder.
O futuro da competição na Internet
Enquanto cada indústria se envolver de uma única forma, o exame das forças que
influenciam a estrutura da indústria indica que a adesão à tecnologia da Internet irá
da mesma forma conti-nuar a pressionar a rentabilidade. Vamos, por exemplo, considerar a
intensidade da competição. Muitas dotcoms estão a desaparecer, o que parece indicar que
a consolidação se instalará e a rivalidade será reduzida. Mas enquanto assistimos a
uma inevitável consolidação entre novos jogadores, muitas empresas estabelecidas
começam a familiarizar-se com a tecnologia da Internet, implementando rapidamente as
aplicações online. Com uma combinação entre novas e velhas empresas e, geralmente,
baixas barreiras à entrada, muitas indústrias acabarão por assistir ao aumento do
número de concorrentes na rede, reforçando mais a rivalidade que antes do advento da
Internet.
O poder dos consumidores também tenderá a aumentar. A curiosidade inicial dos
compradores na Web acabará. As empresas que oferecem produtos ou serviços online serão
forçadas a conferir benefícios reais. Os consumidores parecem ter perdido o interesse
por serviços como os leilões invertidos da Priceline.com, porque o que se poupa não tem
peso significativo. À medida que os clientes se familiarizam com a tecnologia, a lealdade
com os seus fornecedores iniciais irá também decair. Eles irão então reconhecer que o
custo de ligação é baixo.
Uma mudança similar afectará as estratégias baseadas na publicidade. Mesmo agora, os
publicitários estão a tornar-se cada vez mais discriminativos e a taxa de crescimento da
publicidade na Web está a abrandar. Os publicitários continuarão a exercer o seu poder
de negociação para fazer baixar significativamente as taxas, ajudados por novos agentes
de publicidade na Internet.
Mas nem todas as notícias são más. Alguns avanços tecnológicos fornecerão
oportunidades para elevar a rentabilidade. Os progressos do sistema de vídeo, por
exemplo, tornarão mais fácil para os representantes do serviço ao cliente, ou outro
pessoal da empresa, falar directamente com os clientes através dos seus computadores. Os
vendedores da Internet estarão aptos a diferenciarem-se e a desviarem a atenção dos
compradores do preço. E os serviços, como o pagamento automático da conta através dos
bancos, podem impulsionar os custos de ligação. Em geral, as novas tecnologias da
Internet irão continuar a influenciar a rentabilidade através da mudança do poder para
os clientes.
Se a rentabilidade média está sob pressão em muitas indústrias influenciadas pela
Internet, é essencial que as empresas se coloquem à parte, ou seja, que consigam ser
mais rentáveis que a empresa média.
A Internet e a vantagem competitiva
A única maneira de conseguir isto é atingindo uma vantagem competitiva sustentável
operando através de baixos custos, comandando bons preços, ou fazendo ambas as
coisas. As vantagens pelo custo e pelo preço podem ser atingidas de duas maneiras. Uma é
pela eficácia operacional fazendo as mesmas coisas que fazem os seus concorrentes,
mas fazendo-as melhor.
A outra maneira de conseguir vantagem é pelo posicionamento estratégi-co fazendo
coisas de forma diferente dos concorrentes mas de maneira que confiram um único tipo de
valor aos clientes. Isto pode significar oferecer um conjunto diferente de
características, uma gama diferente de serviços, ou combinações lógicas diferentes.
A Internet afecta a eficácia operacional e o posicionamento estratégico de diferentes
maneiras. Torna mais difícil para as empresas manterem vantagens operacionais, mas dá
novas oportunidades de atingirem ou fortalecerem um posicionamento estratégico
diferenciado.
Eficácia operacional. A Internet é, sem dúvida, a ferramenta mais
poderosa disponível hoje em dia para aumentar a eficácia operacional. Facilitando e
aumentando a velocidade da troca de informação em tempo real, permite melhoramentos ao
longo de toda a cadeia de valor em quase todas as empresas e sectores de actividade. E
como é uma plataforma aberta com padrões comuns, as empresas podem drenar os seus
benefícios com muito menos investimento que aquele que era necessário para tirar
proveitos em anteriores gerações de tecnologia de informação.
Mas desenvolver simplesmente a eficácia operacional não confere uma vantagem
competitiva. As empresas só ganham vantagem se forem capazes de atingir e manter níveis
de eficácia operacional mais altos que os concorrentes. Isto é algo extremamente
difícil, mesmo quando as circunstâncias são as melhores. Uma vez que uma empresa
estabelece uma nova e melhor prática, os rivais tendem a copiá-la imediatamente.
Posicionamento estratégico. À medida que se torna mais difícil manter
vantagens operacionais, o posicionamento estratégico vai aumentando de importância. Se
uma empresa não pode ser mais eficaz operacionalmente que os seus rivais, a única
maneira de gerar altos níveis de valor económico é ganhar uma vantagem pelo custo ou
pelo preço, competindo de uma forma distinta. Ironicamente, as empresas de hoje definem a
competição que envolve a Internet quase inteiramente em termos de eficácia operacional.
Acreditando que não existe nenhuma vantagem sustentável, elas procuram rapidez e
agilidade, esperando ficar um passo à frente da competição. É claro que uma tal
abordagem da competição se torna uma profecia que se auto-realiza. Sem uma direcção
estratégica diferenciada, a rapidez e a flexibilidade não levam a lugar nenhum. Também
não são criadas vantagens competitivas únicas ou as melhorias são tão genéricas que
não podem ser mantidas.
As implicações da ausência de
estratégia...
Muitos dos pioneiros em negócios na Internet, tanto as dotcoms como as empresas
estabelecidas, competiram de uma maneira que viola todas as noções de boa estratégia.
Em vez de direccionarem os lucros, tentaram, a todo o custo, maximizar as receitas e o
mercado das acções, perseguindo os clientes indiscriminadamente, através de descontos,
promoções, incentivos de canal e pesada publicidade. Em vez de se concentrarem em
conferir verdadeiro valor, que é uma mais-valia para os clientes, perseguiram receitas
indirectas a partir de fontes como taxas de publicidade e de número de cliques dos
associados do comércio na Internet. Em vez de fazerem negociações, esforçaram-se por
oferecer todos os produtos, serviços ou tipo de informação que se possam imaginar. Em
vez de desenharem a cadeia de valor de uma forma diferenciada, imitaram as actividades dos
rivais. Em vez de criarem e manterem o controlo sobre os próprios fundos e canais de
marketing, enveredaram em ousadas coligações e relações de outsourcing, corroendo,
posteriormente, a sua própria diferenciação. É verdade que algumas empresas anularam
esses erros, mas essas são uma excepção à regra.
... são grandes e difíceis de
superar
Por ignorarem a estratégia, muitas empresas arruinaram a estrutura das suas indústrias,
apressaram a convergência competitiva e reduziram a possibilidade de elas ou de outro
qualquer poder ganhar uma vantagem competitiva. Uma destrutiva forma de competição tem
estado em efervescência, que confunde a aquisição por parte dos clientes com a
construção da rentabilidade. Pior ainda, o preço tem sido considerado como a primeira,
se não a única, variável competitiva. Em vez de darem importância à capacidade da
Internet para suportar a conveniência, o serviço, a especialização, a padronização e
outras formas de valor que justifiquem preços atractivos, as empresas deitaram por terra
a competição. Uma vez que a competição foi concebida desta maneira, será muito
difícil voltar atrás.
Mesmo as empresas bem estabelecidas esqueceram-se do que as torna únicas e apressaram-se
a implementar as últimas novidades em aplicações da Internet e a copiar as ofertas das
dotcoms. Os líderes da indústria comprometeram as suas vantagens competitivas entrando
em segmentos de mercado onde não marcaram a diferença. Muitas empresas estabelecidas,
reagindo ao entusiasmo pouco sensato dos investidores, juntaram apressadamente unidades de
Internet, num esforço inútil de impulsionar o seu valor no mercado de acções.
Não devia ser assim... e não tem de ser no futuro. Quando chega a altura de reforçar
uma estratégia diferenciada e adequar actividades de facto, a Internet fornece uma melhor
base tecnológica que as anteriores gerações de TI. A arquitectura da Internet, unida a
outros progressos na arquitectura do software e nas ferramentas de desenvolvimento,
converteu as TI numa ferramenta bastante mais poderosa para fazer estratégia. É mais
fácil padronizar soluções empacotadas de aplicações da Internet para uma empresa que
tenha um posicionamento estratégico diferenciado. Fornecendo uma base comum de
distribuição de TI ao longo da cadeia de valor, a arquitectura da Internet e os padrões
tornam possível construir verdadeiros sistemas integrados e padronizados, que reforçam o
encaixe entre as actividades. Para ganharem estas vantagens, contudo, as empresas não
precisam de ter pressa para adoptarem aplicações genéricas empacotadas out of
the box , devendo, sim, adequar a implementação das tecnologias da Internet às
suas estratégias específicas.
A Internet como um complemento
Para capitalizar o potencial estratégico da Internet, os executivos e os empreendedores
terão de mudar os seus pontos de vista. Foi largamente assumido que a Internet é
«canibalesca», que iria substituir as formas mais convencionais de fazer negócio e
aniquilar todas as vantagens tradicionais. Isto é um grande exagero! Não há dúvida de
que podem existir verdadeiras trocas entre a Internet e as actividades tradicionais. Na
indústria de discos, por exemplo, a distribuição de música online pode reduzir a
necessidade de capital na produção de CDs. Globalmente, contudo, as trocas na
maior parte das indústrias são modestas. Enquanto a Internet irá substituir certos
elementos das cadeias de valor, a completa «canibalização» da cadeia de valor será
extremamente rara. Mesmo no negócio da música, muitas actividades tradicionais, tais
como encontrar e promover novos artistas e produzir e gravar música, continuarão a ser
extremamente importantes.
O risco de conflito entre canais também parece ter sido exagerado. À medida que as
vendas online se tornam mais comuns, os canais tradicionais, que eram inicialmente
cépticos em relação à Internet, aderiram. Longe de estar a «canibalizar» esses
canais, a tecnologia da Internet pode dar oportunidade a muitos deles.
A ameaça de desconexão dos canais surge consideravelmente mais baixa do que estava
previsto inicialmente.
Em muitos casos a Internet complementa, em vez de «canibalizar», as actividades e as
formas de competir tradicionais.
As actividades virtuais não eliminam a necessidade das actividades físicas, mas muitas
vezes ampliam a sua importância. A complementaridade entre as actividades da Internet e
as tradicionais aumenta por uma série de razões. Primeiro, ao introduzir as aplicações
da Internet numa actividade, estas muitas vezes dão lugar a grandes procuras em qualquer
lugar da cadeia de valor. As encomendas directas, por exemplo, aumentam a importância da
armazenagem e da expedição. Segundo, o uso da Internet numa actividade pode ter
consequências sistémicas, que requerem actividades físicas novas ou ampliadas, muitas
vezes imprevistas. Os serviços de ofertas de emprego na Internet, por exemplo, reduziram
grandemente o custo da procura de candidatos potenciais, mas também inundam os
empregadores com currículos electrónicos. Tornando mais fácil a distribuição de
currículos daqueles que andam à procura de emprego, a Internet força os empregadores a
escolherem entre um maior número de candidatos sem o perfil requerido. Uma dinâmica
similar acontece nos mercados digitais. Os fornecedores estão aptos a reduzir o custo da
transacção recolhendo as encomendas enquanto se movimentam online, mas muitas vezes têm
de responder a pedidos adicionais de informação, o que, mais uma vez, coloca novos
constrangimento nas actividades tradicionais. Estes efeitos sublinham o facto de as
aplicações da Internet não serem tecnologias isoladas; devem ser integradas no conjunto
da cadeia de valor.
Terceiro, muitas das aplicações da Internet têm defeitos quando comparadas com os
métodos convencionais. Embora a tecnologia da Internet possa fazer muitas coisas úteis
hoje em dia e que seguramente desenvolverá no futuro , ela não pode fazer
tudo. Nas suas limitações estão incluídas as seguintes:
- Os clientes não podem examinar fisicamente, tocar e testar
produtos.
- O conhecimento transferido é restrito em relação ao
conhecimento codificado, sacrificando a espontaneidade.
- A facilidade de aprender quanto a fornecedores e clientes
está limitada, dada a falta de contacto cara-a-cara.
- A falta de contacto humano com o cliente exclui uma poderosa
ferramenta para encorajar as compras, as condições e termos da relação comercial e
fornecer conselhos.
- Os atrasos estão incluídos nos sites de navegação e de
consulta de informação e são introduzidos pelo procedimento de embarque directo.
- São requeridos custos lógicos extras para instalar,
empacotar e transportar pequenos carregamentos.
- As empresas não conseguem tirar vantagens do baixo custo, das
funções não transaccionais desempenhadas pelas forças de vendas, canais de
distribuição e departamentos de compras.
- A ausência de facilidades físicas circunscreve algumas
funções e reduz os meios de reforço da imagem e de estabelecimento da performance.
- Atrair novos clientes é difícil, dada a magnitude da
informação disponível e das opções de compra.
O fim da Nova Economia é fundir-se
com a tradicional
As aplicações básicas da Internet tornar-se-ão mesas de jogo as empresas não
serão capazes de sobreviver sem elas, mas não irão ganhar qualquer vantagem a partir
delas. Em alternativa, as vantagens competitivas mais fortes irão resultar das forças
tradicionais, tais como produtos únicos, conteúdos exclusivos, actividades físicas
distintas, conhecimento superior do produto e um serviço personalizado. A tecnologia da
Internet deve ter capacidade para fortalecer essas vantagens, englobando as actividades da
empresa num sistema mais diferenciado, mas não é provável que as suplante.
Integrar os métodos tradicionais e os da Internet cria vantagens potenciais para as
empresas estabelecidas. Será mais fácil elas adoptarem e integrarem os métodos da
Internet do que será para as dotcoms adoptarem e integrarem os métodos tradicionais.
Não chega desvirtuar a Internet em relação aos meios de competição históricos
em configurações simplistas do tipo «cliquar-e-pressionar». As empresas
estabelecidas terão sucesso na implementação da tecnologia da Internet para
reconfigurar actividades tradicionais ou quando encontrem novas combinações da Internet
com as abordagens tradicionais.
As dotcoms devem prosseguir as suas próprias estratégias diferenciadas, em vez de
rivalizar com uns e outros ou com o posicionamento das empresas estabelecidas. Terão de
deixar de competir com base unicamente no preço, e, em vez disso, orientarem-se para a
selecção do produto, o design do produto, o serviço, a imagem e outras áreas onde se
podem diferenciar. As dotcoms também podem levar a cabo a combinação entre os métodos
da Internet e os tradicionais. Algumas atingirão o sucesso criando as suas próprias
formas de o fazer. Outras atingirão o sucesso concentrando-se em segmentos de mercado que
demonstrem verdadeiras trocas entre os métodos da Internet e os tradicionais.
Quando vista com esta clareza, a Nova Economia surge menos como uma nova economia que como
uma velha economia que teve acesso a uma nova tecnologia. Mesmo as expressões «nova
economia» e «velha economia» estão rapidamente a perder a sua relevância, se é que
alguma vez a tiveram. A velha economia das empresas estabelecidas e a nova economia das
dotcoms estão a fundir-se, e mais tarde irá ser difícil distingui-las. Retirar estas
expressões só pode ser saudável, porque acabará com a confusão e os pensamentos
caluniosos, que têm sido tão destrutivos do valor económico durante a «idade da
adolescência» da Internet.
O próximo estádio de evolução da Internet envolverá uma mudança de pensamento: do
e-business para o business, da e-strategy para a strategy. Só integrando a Internet no
conjunto da estratégia é que esta nova tecnologia se tornará numa força igualmente
poderosa para a vantagem competitiva. ed
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Imperativos estratégicos para as
dotcoms e para as empresas estabelecidas |
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Nesta conjuntura
crítica da evolução da
tecnologia da Internet, as dotcoms e as empresas estabelecidas enfrentam
diferentes imperativos estratégicos. As dotcoms devem desenvolver verdadeiras
estratégias de criação de valor económico. Elas devem tomar consciência de que as
formas usuais de competição são destrutivas e fúteis e que não as beneficiam nem, no
final, os próprios clientes. As empresas estabelecidas, por sua vez, devem parar de
implementar a Internet numa base isolada e, em vez disso, usarem-na para aumentar a
diferenciação das suas estratégias.
A dotcoms com mais sucesso irão concentrar-se na criação de benefícios que os clientes
pagarão para ter, em vez de perseguirem as receitas de terceiros, vindas da publicidade e
do número de cliques.
Para serem competitivas, precisarão de alargar as suas cadeias de valor para envolver
outras actividades para além daquelas que são conduzidas na Internet e para desenvolver
outros activos, incluindo
os físicos.
As dotcoms não devem cair na armadilha da imitação das empresas estabelecidas.
Adicionar simplesmente actividades convencionais é uma estratégia do tipo
«eu-também», que não fornecerá uma vantagem competitiva. Pelo contrário, precisam de
criar estratégias que envolvam novas cadeias de valor híbridas, juntando as actividades
físicas e virtuais em configurações únicas.
Outra estratégia para as dotcoms é procurarem negócios concentrando-se exclusivamente
em segmentos onde um modelo da Internet único oferece vantagens. Em vez de procurarem
forçar o modelo da Internet em todo o mercado, as dotcoms podem levar os clientes a
pensar que não têm uma forte necessidade de funções fora da Internet mesmo que
esses clientes só representem uma pequena parte no conjunto da indústria. Nesses
segmentos, o desafio será encontrar uma proposição de valor para a empresa que a
distinga dos seus rivais na Internet e que corresponda a baixas barreiras à entrada.
As dotcoms bem sucedidas irão partilhar as seguintes características: |
- Fortes capacidades de tecnologia da Internet.
- Uma estratégia diferenciada das empresas
estabelecidas e de outras dotcoms.
- Ênfase na criação de valor para o cliente,
cobrando-lho directamente.
- Formas distintas de desempenhar funções físicas
instalando activos que não são da Internet mas que complementem as suas posições
estratégicas
- Profundo conhecimento da indústria, que conduza a
competências, informações e relações exclusivas futuras.
A maioria das empresas estabelecidas não precisa de
ter medo da Internet as previsões de poderem vir a ficar nas mãos das dotcoms
foram exageradas.
As empresas estabelecidas possuem vantagens competitivas tradicionais que prevalecerão;
elas também têm forças próprias para o desenvolvimento da tecnologia da Internet.
A maior ameaça para uma empresa estabelecida assenta tanto no facto de falhar na
implementação da Internet como no de não conseguir implementá-la estrategicamente.
Cada empresa precisa de um programa agressivo para implementar a Internet fora da sua
cadeia de valor, usando a tecnologia para reforçar a vantagem competitiva tradicional e
complementar as formas existentes de competição. O truque não é imitar os rivais, mas
adequar as aplicações da Internet ao conjunto da estratégia de uma empresa de forma a
alargar as vantagens competitivas e a torná-las mais sustentáveis. A expansão da
Schwab´s pelos seus ramos de tapar e pressionar, desde que começou o comércio online,
por exemplo, está a alargar as suas vantagens aos concorrentes unicamente da Internet. A
Internet, quando é bem usada, consegue suportar uma grande orientação estratégica e um
sistema de actividades integradas mais firme.
As empresas estabelecidas que serão bem sucedidas no futuro serão aquelas que usarem a
tecnologia da Internet para melhorar as actividades tradicionais e aquelas que encontrarem
e implementarem novas combinações de actividades físicas e virtuais, que antes não se
previa ser possível. |
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Condensado do artigo «Internet and
Strategy», by Michael Porter. Harvard Business Review, de Março de
2001. © 2001 by President and Fellows of Harvard College. Publicado com permissão.
Tradução de Maria João Alexandre. |