o nogome está em fase de re-estruturação.
o design na cultura de rede nos pressupostos de
Edmond Couchot e Fransico Homem de Melo
O mundo da diferença, um mundo de tolerâncias e complexidades guarda, no sentido mais próprio de lócus, a complexidade que a modernidade tanto travestiu em pseudo-ordem, acalmando os nervos da cortina de ferro ontológica de uma correta tradição filosófica, totalmente oposta aos agenciamentos das enunciações da escritura digital :: lugares, momentos, imagens, linguagens, instituições, técnicas, tecnologias, fluxos, etc... dos sentidos e percepções do sensível.
Segundo Couchot, de todas as combinações dos dispositivos midiáticos, a mais violenta e decisiva tem sido a conexão sujeito e máquina :: violenta porque projeta o sujeito numa situação nova da redefinição do papel de autor e expectador e, decisiva no que poderia ser chamado de “arte da hibridação”, que é dependente dessa mestiçagem sujeito/máquina. Metamorfose que possibilita a duplicação do sujeito, como nos enuncia o seu conceito de Sujeito “Je” e Sujeito “On”. Essa duplicação, sua simulação, é o sintoma da dissolução da individualidade, de toda diferença, de toda alteridade, pois esse sujeito interfaciado deve se tornar obrigatoriamente um inter-ator colaborativo.
O que muda neste contexto é a posição do sujeito, um sujeito conectado, uma natureza de aparelhagem, possibilidades de ações automatizadas. Como dispositivo em forma de sujeito que se produz nele e se faz funcionar e manifestar sua própria presença. O sujeito aparelhado tem, a partir do aparato técnico/tecnológico, suas ações multiplicadas pelo automatismo.
Para a máquina, as tomadas de decisão e a subjetividade do autor devem ser numerizadas para serem compreendidas. Esse sujeito não ocupa mais a posição tradicional do olhar de mera representação – o computador nos percebe como imagem. O sujeito traspassado pela interface é muito mais trajeto que sujeito. Nesse trajeto, ele encontra seus homólogos, outros sujeitos virtuais. As mudanças intersubjetivas não são mais aquelas que regem a representação ótica.
O numérico, dispositivo interativo, quando traspassado pela interface, o que parece ser autentico é na verdade uma simulação. O Sujeito aparelhado, como bem diz Edmond Couchot, adquiriu uma ubiqüidade dialógica, ou seja, qualquer informação na rede pode estar em todo lugar, as representações estão conectadas entre si, os documentos estão em um super documento e nós estamos escrevendo juntos. As potencialidades que se apresentam estão contidas no registro e na consulta das várias memórias, no pertencimento das comunidades virtuais, nos jornais e TVs do mundo inteiro. Isso não era possível há cinco anos atrás.
Pode ser uma nova percepção sinaptica, uma alteridade fractal nascida na interface homem e máquina, um meio situado entre o individual e o coletivo, entre sujeito e sociedade. Isso não confirma a consciência planetária de Roy Ascott, pelo menos no sentido psíquico, mas processa questões primordiais para a compreensão do design entre seus conceitos técnicos e tecnológicos.
Para uma ampla compreensão pragmática desse assunto, buscamos compreender o atual estatuto do design, o dito Design Digital, a partir de um olhar conceitual de quem exercita a poética desta mais nova escritura: o pensamento do designer Prof. Dr. Francisco Homem de Melo.
1. dos conceitos de técnico e tecnológico
O analógico tem uma estética tecnológica, aquela resultante das especificidades das mídias, a ver: serigrafia, off-set, xerox, etc... A escritura digital, como linguagem específica, também possui sua própria estética. Assim, a história do design pode ser mais bem apresentada a partir de uma historiografia das técnicas de reprodução de imagens ou através das estéticas advindas de suas linguagens tecnológicas?
Francisco Homem de Melo – Das linguagens tecnológicas, As transformações e/ou a permanência da técnica não explicam o percurso do design, pois o diagrama é independente.
2. da InTerFacE EsTéTIcA 1
Sobre a desconstrução da linguagem (legibilidade/leiturabilidade) e o ruído na informação visual. No design chamado digital, ou web design (na falta de outra nomenclatura), se estrutura além da representação promovida pelas máquinas de percepção (fotografia, cinema e vídeo), a imagem agora é um mapa informacional, admite comportamento. A interface não se reduz a um layout ela é, sobretudo, uma operação de níveis. No que essa configuração pode interferir na estética do design?
Francisco Homem de Melo - O contexto cultural, de leitura e de expectativas, é o primeiro dado do projeto. O briefing é dado pelo mapeamento do público alvo. Sou um habitante de um mundo pedestre. Não faço arte, mas meu trabalho é inspirado na arte. Faço design estruturado a partir de elementos que surgem de um estímulo pré-dado. O leitor da revista The Face também é o leitor da Veja, e ele quer as duas exatamente como são: a The Face com seu identitário ruído e, a Veja em sua moderna hierarquização estrutural. É assim que ele as lê. Cada uma das revistas com suas respectivas interfaces. A estética depende da intencionalidade, perpassa inclusive a cultura do micreiro, a cultura do disponível. Assim notamos que a cultura do readymade, do remix e das assemblages estão contempladas, por exemplo, na produção do design vernacular.
3. da InTerFacE EsTéTIcA 2
Podemos definir o design como parte de um contexto técnico e tecnológico, além de suas relações histórico/sociais. Técnico nas especificidades operativas de usabilidade, potência de re-configuração (atualização) e na capacidade de auto-generação dadas as nanotecnologias e a inteligência artificial. Tecnológico na ceara dialética dos conceitos e valores que formatam o sujeito interfaciado, indubitáveis indicadores dos parâmetros da cultura que se estabelece com a potencialidade desse mesmo aparato técnico: a cultura de rede. Sem a hierarquia das informações, a previsibilidade dos resultados, qual seria a distinção entre design e arte? Toda interface depende de um design? E de uma estética?
Francisco Homem de Melo - Por exemplo, nem tudo é arquitetura. A casa ali dá esquina (de qualquer lugar) não necessariamente é uma arquitetura, ela pode não passar de uma construção. Arquitetura, dado o legado de Le Corbusier “é o jogo sábio e magnífico dos volumes sob a luz”. A isso eu chamo de InTerFacE EsTéTIcA. O design não se pensa na cabeça, mas na concretude do instrumento que gera a linguagem, se muda o instrumento, altera-se a linguagem que é gerada. Um projeto que eu tenha que realizar, desenvolvido do Quark Express, terá um resultado específico. Se o mesmo projeto for trabalhado no Free Hand, ou noutro software gráfico qualquer, será outra coisa, terá soluções distintas, completamente interferido pela “interface” do programa utilizado. Afinal, onde eu tenho design? O computador nos dá uma ilusão de autonomia, induzindo a falsa idéia de onipotência, como se fosse capaz de dar conta de tudo.
O círculo construído pela função/ferramente de um software só é igual ao circulo desenhado no papel, pelo gesto humano, nas suas especificidades da matemática isométrica. Fica fora disso as características resultantes da fisicalidade do material utilizado, por exemplo, o sulco no papel advindo da pressão do pulso, ou as imperfeições dos limites periféricos do traço, muitas vezes condicionados ao estado psicológico e/ou emocional do seu autor que, indubitavelmente, interfere no seu resultado final. Assim também como a elipse foi exponencialmente utilizada a partir do computador pela facilidade de execução que esse equipamento e seus sistemas proporcionaram ao projeto dessa forma.
Também se faz observar o fato de que um cartão de apresentação, construído tipográficamente em prelo, com tipos moldados em chumbo, é por excelência, atualmente, de qualidade superior ao projeto elaborado e realizado no computador. No digital há perda da materialidade que traz consigo marcas que pode fazer parte do resultado estético do projeto em design.
4. da InTerFacE EsTéTIcA 3
Podemos pensar no Design Digital como uma InTerFacE EsTéTIcA Tecnológica, diferentemente das especificidades da Interface Cultural de Lev Manovich?
Francisco Homem de Melo - Se essa interface é o suporte da linguagem, a resposta é SIM, podemos pensar numa InTerFacE EsTéTIcA.
