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A propósito de instrumentos e diálogos na medida do inverso.

Qual a situação discursiva ideal?
A teoria de Habermas baseia-se na ideia em que conseguir conhecimento está enraízado numa relação sujeito-sujeito, isto é, a relação entre indivíduos, ao invés da descrição racional ser colocada nos termos [relação] sujeito-objecto. Habermas explica: "O objectivo da investigação muda de racionalidade cognitivo-instrumental para uma racionalidade comunicativa. E o que é paradigmático para a última, não é a relação de um sujeito solitário com algo pertencente ao mundo objectivo que pode ser representado e manipulado, mas sim a relação inter-subjectiva que sujeitos falantes e actuantes despoletam quando chegam a um acordo mútuo sobre o que quer que seja." (Habermas, Theory of communicative action I: 392).


As relações entre sujeitos só são mantidas através da acção. Habermas faz a distinção entre três formas de acção: acção instrumental (orientada para o sucesso, asocial), acção estratégica (orientada para o sucesso, social) e acção comunicativa (orientada para o entendimento entre partes, social). Acção comunicativa é o tipo de acção onde os sujeitos tentam chegar a um acordo sobre o "verdadeiro" conhecimento. Verdadeiro está entre aspas, porque conhecimento é contextual (varia com o tempo, lugar...). Uma discussão que evolui acerca de algo é chamada de discurso. Existem quatro níveis de discurso, os quais não menciono por agora, mas que são relevantes para o passo na direcção da formulação de uma situação de discurso ideal. De acordo com Habermas, o fluir desimpedido enrte os quatro níveis de discurso só é possível quando se verifica uma simetria comunicativa entre os participantes no discurso. As condições para essa simetria comunicativa (e consequente situação de conversa ideal) são:

:::Todas as pessoas envolvidas têm que possuir igual oportunidade para começar um discurso.

:::Todas as pessoas envolvidas têm que possuir iqual oportunidade para participar num discurso.

:::Não pode haver diferença de poder entre participantes.

:::Os participantes têm que ser verdadeiros uns com os outros.


Todas estas condições visam contribuir para a troca de argumentação verdadeira, isto é, todos os argumentos têm que ser observados antes que haja consenso entre os participantes no discurso. Isso não significa que haverá sempre um consenso pós-discurso. Podemos concordar que não há concenso da mesma forma que concordamos que existe consenso. Quando um consenso é conseguido, não significa que é definitivo. Pode sempre ser re-discutido num futuro.(...)

Até agora, e á luz da teoria de Habermas.
Será que os instrumentos[David?] que estamos a criar nos estão a colocar próximos de uma situação de conversa ideal, ou mais próximo do centro da terra? Habermas não nos fala no modo ideal para encetarmos conversas, discorrermos. Não nos diz que uma cervaja e uns tremoços talvez sejam melhores do que um ecrã. Mas também não nos diz que o discurso verdadeiro só pode ter lugar num relação inter-pessoal física. Pois isto vai contra a ideia de que quanto mais intervenientes entrarem na conversa, maior o número de argumentos relevantes para a mesma [mas também maior o ruído argumenta Clay Shirky], logo qualquer plataforma internet apresenta uma situação potencialmente ideal se for convenientemente instrumentalizada. Isto é, se for reduzida à escala humana.
(...)
Depois surgem os problemas de confiança, colapso de contexto... e por fim a capacidade política e social de concretização do consenso.

Um tirano disse uma vez acerca de instrumentos: "Há que ter o conceito, a técnica, e a capacidade política e social para a concretização." Depois voltamos todos para as cavernas.


Por Kwame /Permalink
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