Poesia Fonetica, sílvia xavier

A poesia sempre foi muito utilizada como veículo de transmissão cultural, visto que, para além do conteúdo/ mensagem em si, utiliza a rima, o ritmo e a dicção.
Podemos encontrar exemplos da poesia fonética no
futurismo russo e italiano, no dadaísmo e merz. O que caracteriza este tipo de poesia é a palavra aqui não ser utilizada para representar um conceito, mas simplesmente pelos sons que permite obter, pela sua acústica. Distingue-se também pela introdução de novas técnicas fonéticas, ruídos, e pelo seu carácter experimental. Na poesia fonética, o discurso é a música, são os sons emitidos através das palavras. Não há uma intensão em relação ao discurso, mas sim em relação à música. Este tipo de poemas explora os elementos básicos da música: intensidade, som, tempo,...
O futurismo italiano deu o nome "palvras em liberdade" ao facto de defenderem que o poema deve sair da folha e ser recitado com a voz e o rosto deshumanizado, podendo acompanhar diferentes tipos de instrumentos, ou mesmo outras declamações. O que o futurismo pretendia era acabar com a imagem do poeta romântico e contrapôr uma acção dinâmica e um espectáculo visual e fonético.
Já os futuristas russos inventaram o conceito "Zaum". Alexéi Jruchenvj afirmava no seu manifesto que a língua comum escraviza, e a nova zaum liberta. Esta era uma língua mais conceptual do que real, e vazia de um sentido racional, mostrando as possibilidades de uma língua transmental.
Os futuristas compunham os seus poemas sem adjectivos, advérbios, versos ou sinais de pontuação, utilizavam colagens de substantivos que evocavam uma sucessão contínua de imagens, basta ligar a base mais primitiva de idiomas, a onomatopeia e o ruído.
Mas as personagens principais da poesia fonética foram os dadaístas. Em 1897 encontramos o poemas kikakoku!, de Sheerbart, e em 1905 o poema Das grosse lalula, de Christian Morgenstern. Aqui encontramos uma sucessão de sons com alguma semelhança ao alemão, com uma estrutura similar à poesia tradicional nos últimos signos que nos poderiam recordar os idiomas infantis, rimas cantadas, a onomatopeia e imitações de sons de animais.
Em 1916 os dadá assumiram-se anti-arte, ao que destruía a cultura, e portanto à guerra. Esta é uma posição oposta à dos futuristas.
Hugo Ball entretanto criou o Cavaret Voltaire, onde vários artistas se reuniam dando a origem à anti-arte, anti-poesia, versos sem palavras e poemas fonéticos.
No poema Karawane (mp3), de Balla, a tipografia e a composição jogam um papel importante que nos recorda as técnicas de colagem de Apollinaire.
Tristán Tzara, Marcel Junco e outros exploraram o poema simultãneo como L'amirall cherche une maison à louer, onde todos os participantes cantam, falam, e fazem ruídos.
Mas os autores que investigaram mais a fundo a poesia fonética foram Hausmann e Schwitters. Hausmann desde dadá e Schwitters desde merz.
O importante aqui não é o significado das palavras, mas sim os sons e o ritmo. A série ritmica das consoantes, ditongos e contra-movimentos do complemento das vogais resulta o poema, que deve orientar-se óptica e poéticamente. O poema é a fusão da disonância e da onomatopeia.
Para Hausmann, o poema é um conjunto de associações respiratórios e auditivas. Os poemas deste artista são baseados nas letras. Ele chamou poemas optofonéticos (Hausmann institui os mecanismos que foram utilizados a partir dos anos 50 na composição da música electroacústica, e ainda hoje são utilizados de uma forma natural) aos construídos à base de letras combinadas tipográficamente mais ou menos grossas, grandes ou pequenas. Isto era poesia meramente abstracta. A letra é vista como um símbolo visual e acústico.
Schwitters foi a pessoa que se destacou mais na poesia fonética em todos este período.
A música merz caracteriza-se por compôr frases inteiras encontradas em periódicos, conversas ouvidas em locais públicos, para eles tudo pode ser manipulado. Anna Blume, de 1919 foi um poema muito polémico, e foi influênciado pelo poema fonético de Hausmann fmsbu. A Ursonata (sonata primordial) foi a quinta essência de todos os tartamudeados, tornitroantes e mesmo assim maravilhosamente métricos poemas fonéticos. Este último poema é a maior contribuição da poesia fonética de todos os tempos. Esta surgiu através da repetição do poema de Hausmann fmsbu.
No manifesto "a poesia consequente" afirma que não é a palavra o material da poesia, mas sim a letra, as letras não são só conceitos, as letras não são só sons, o que a poesia valoriza é a conjugação das letras e os sons obtidos através desses grupos.
Após a 2ª guerra mundial Hausmann é o único que continua com esta práctica fonética, e Schwitters morre em exílio em 1948.
A revolução dos media nos anos 50 retomaram as vanguardas do princípio do século, no pós guerra existiram algumas intenções de continuarem o letrismo fundado por Isidore Isou. O letrismo situa-se entre os limites da poesia visual e sonora, e a característica mais importante é a hipergrafia, um aprofundamento da letra e dos signos, e a nível sonoro a grafia e o som. Esta partira dos elementos mais básicos: ponto, linha, superfície, símbolos, letras, notas musicais,.. As transcrições sonoras baseiam-se em ruídos humanos básicos: respiração, estalar dos dedos, em resumo, uma linguagem anterior à palavras.
Entre os poetas sonoros actuais podemos destacar a obra de Henri Chopin (mp3), que diz que a origem da poesia sonora está nas próprias fontes da linguagem, e que a finalidade desta é mostrar toda a riqueza dos recursos linguísticos através de um único instrumento: a boca.
As possibilidades de reprodução e transmissão têm possibilitado a popularização da poesia fonética: o magnetófono, o disco, o vídeo, a electrónica, e agora a informática. A polipoesia é um termo que pretende abarcar todas aquelas formas possíveis de realizar poesia com meios electrónicos. Pode-se encontrar alguns exemplos de polipoesia e da poesia fonética nos seguintes http://www.cyberpoem.com/index2.htm
http://www.cyberpoem.com/kabaret/sousa.html
http://www.cyberpoem.com/kabaret/binga1.html
http://www.cyberpoem.com/kabaret/binga2.html

 

 

Texto baseado em: http://www.merzmail.net/fonetica.htm