A poesia sempre
foi muito utilizada como veículo de transmissão cultural, visto
que, para além do conteúdo/ mensagem em si, utiliza a rima,
o ritmo e a dicção.
Podemos encontrar exemplos da poesia fonética no futurismo russo e italiano, no dadaísmo e merz. O que caracteriza este tipo de
poesia é a palavra aqui não ser utilizada para representar um
conceito, mas simplesmente pelos sons que permite obter, pela sua acústica.
Distingue-se também pela introdução de novas técnicas
fonéticas, ruídos, e pelo seu carácter experimental.
Na poesia fonética, o discurso é a música, são
os sons emitidos através das palavras. Não há uma intensão
em relação ao discurso, mas sim em relação à
música. Este tipo de poemas explora os elementos básicos da
música: intensidade, som, tempo,...
O futurismo italiano deu o nome "palvras em liberdade"
ao facto de defenderem que o poema deve sair da folha e ser recitado
com a voz e o rosto deshumanizado, podendo acompanhar diferentes tipos de
instrumentos, ou mesmo outras declamações. O que o futurismo
pretendia era acabar com a imagem do poeta romântico e contrapôr
uma acção dinâmica e um espectáculo visual e fonético.
Já os futuristas russos inventaram o conceito "Zaum". Alexéi
Jruchenvj afirmava no seu manifesto que a língua comum escraviza, e
a nova zaum liberta. Esta era uma língua mais conceptual do que real,
e vazia de um sentido racional, mostrando as possibilidades de uma língua
transmental.
Os futuristas compunham os seus poemas sem adjectivos, advérbios, versos
ou sinais de pontuação, utilizavam colagens de substantivos
que evocavam uma sucessão contínua de imagens, basta ligar a
base mais primitiva de idiomas, a onomatopeia e o ruído.
Mas as personagens principais da poesia fonética foram os dadaístas.
Em 1897 encontramos o poemas kikakoku!,
de Sheerbart, e em 1905 o poema Das grosse lalula, de Christian Morgenstern.
Aqui encontramos uma sucessão de sons com alguma semelhança
ao alemão, com uma estrutura similar à poesia tradicional nos
últimos signos que nos poderiam recordar os idiomas infantis, rimas
cantadas, a onomatopeia e imitações de sons de animais.
Em 1916 os dadá assumiram-se anti-arte, ao que destruía a cultura,
e portanto à guerra. Esta é uma posição oposta
à dos futuristas.
Hugo Ball entretanto
criou o Cavaret Voltaire, onde vários artistas se reuniam dando
a origem à anti-arte, anti-poesia, versos sem palavras e poemas fonéticos.
No poema Karawane (mp3),
de Balla, a tipografia e a composição jogam um papel importante
que nos recorda as técnicas de colagem de Apollinaire.
Tristán Tzara, Marcel Junco e outros exploraram o poema simultãneo
como L'amirall
cherche une maison à louer, onde todos os participantes cantam,
falam, e fazem ruídos.
Mas os autores que investigaram mais a fundo a poesia fonética foram
Hausmann e Schwitters.
Hausmann desde dadá e Schwitters desde merz.
O importante aqui não é o significado das palavras, mas sim
os sons e o ritmo. A série ritmica das consoantes, ditongos e contra-movimentos
do complemento das vogais resulta o poema, que deve orientar-se óptica
e poéticamente. O poema é a fusão da disonância
e da onomatopeia.
Para Hausmann, o poema é um conjunto de associações
respiratórios e auditivas. Os poemas deste artista são
baseados nas letras. Ele chamou poemas optofonéticos
(Hausmann institui os mecanismos que foram utilizados a partir dos anos 50
na composição da música electroacústica, e ainda
hoje são utilizados de uma forma natural) aos construídos à
base de letras combinadas tipográficamente mais ou menos grossas, grandes
ou pequenas. Isto era poesia meramente abstracta. A
letra é vista como um símbolo visual e acústico.
Schwitters foi a pessoa que se destacou mais na poesia fonética em
todos este período.
A música merz caracteriza-se por compôr frases inteiras encontradas
em periódicos, conversas ouvidas em locais públicos, para eles
tudo pode ser manipulado. Anna Blume, de 1919 foi um poema muito polémico,
e foi influênciado pelo poema fonético de Hausmann fmsbu.
A Ursonata (sonata primordial) foi a
quinta essência de todos os tartamudeados, tornitroantes e mesmo assim
maravilhosamente métricos poemas fonéticos. Este último
poema é a maior contribuição da poesia fonética
de todos os tempos. Esta surgiu através da repetição
do poema de Hausmann fmsbu.
No manifesto "a poesia consequente" afirma que não é
a palavra o material da poesia, mas sim a letra, as letras não são
só conceitos, as letras não são só sons, o que
a poesia valoriza é a conjugação das letras e os sons
obtidos através desses grupos.
Após a 2ª guerra mundial Hausmann é o único que
continua com esta práctica fonética, e Schwitters morre em exílio
em 1948.
A revolução dos media nos anos 50 retomaram as vanguardas do
princípio do século, no pós guerra existiram algumas
intenções de continuarem o letrismo fundado por
Isidore Isou. O letrismo situa-se entre os limites da poesia visual e
sonora, e a característica mais importante é a hipergrafia, um aprofundamento da letra e dos signos,
e a nível sonoro a grafia e o som. Esta partira dos elementos mais
básicos: ponto, linha, superfície, símbolos, letras,
notas musicais,.. As transcrições sonoras baseiam-se em ruídos
humanos básicos: respiração, estalar dos dedos, em resumo,
uma linguagem anterior à palavras.
Entre os poetas sonoros actuais podemos destacar a obra de Henri
Chopin (mp3),
que diz que a origem da poesia sonora está nas próprias fontes
da linguagem, e que a finalidade desta é mostrar toda a riqueza dos
recursos linguísticos através de um único instrumento:
a boca.
As possibilidades de reprodução e transmissão têm
possibilitado a popularização da poesia fonética: o magnetófono,
o disco, o vídeo, a electrónica, e agora a informática.
A polipoesia é um termo que pretende abarcar todas aquelas formas possíveis
de realizar poesia com meios electrónicos. Pode-se encontrar alguns
exemplos de polipoesia e da poesia fonética nos seguintes http://www.cyberpoem.com/index2.htm
http://www.cyberpoem.com/kabaret/sousa.html
http://www.cyberpoem.com/kabaret/binga1.html
http://www.cyberpoem.com/kabaret/binga2.html
Texto baseado em: http://www.merzmail.net/fonetica.htm